Crônica: O dia em que a zona fechou

humbertoPor Elias Ribeiro Pinto / Ilustração Humberto Castro

Como vocês sabem, na nossa Campina, se abriga alguns dos mais importantes conjuntos arquitetônicos de Belém, como o Teatro da Paz, a Praça da República, também acolhe o chamado quadrilátero do baixo meretrício, compreendendo a General Gurjão, 1º de Março, Riachuelo e Padre Prudêncio, que, certamente, já viveu dias melhores.

É quadrilátero de localização privilegiada, central. No entanto, ainda hoje é evitado pelas “famílias”, principalmente quando seguem a pé, mas até de carro passam zunindo, fazendo de conta que não veem o prostibulário comércio que se projeta nos para-brisas de seus veículos. Mas sempre sobra o retrovisor para uma espiada na carnal paisagem rameira, a fazer par com o casario degradante.

Também é verdade que, se antes tínhamos, na região, a venda de maconha, dominada pelo lendário traficante Luisinho, hoje a barra anda mais pesada com a disseminação do crack, seguida por sua legião de zumbis.

A zona já viveu tempos mais glamourosos, em que pontificavam pensões como as de Madame Fernanda e Madame Zezé, cujos salões recendiam a laquê e serviam uísque Cavalo Branco. O prédio em que funcionou o bordel de Madame Fernanda, um casarão na esquina da Ferreira Cantão com General Gurjão, ainda está de pé – pelo menos da última vez em que o vi.

Mas também teve de enfrentar, nos idos de abril de 1970, um período de tolerância zero ao baixo meretrício, quando a zona foi fechada e seu comércio proibido.

Querem saber como foi a tentativa de acabar com a zona? Para sermos precisos, o fato se deu exatamente às 18h do dia 1º de abril de 1970 (putz, o dia da mentira), quando o delegado Luiz Paes de Andrade, acompanhado de cinco agentes, deu cumprimento à ordem emitida pelo governador Alacid Nunes, de fechar a chamada zona do meretrício, no quadrilátero compreendido pela 1º de Março, Riachuelo, Padre Prudêncio e General Gurjão. A partir desse dia, o comércio do sexo estava terminantemente proibido na área. As meretrizes deveriam, digamos, comercializar seu produto do Entroncamento em diante.

Com a execução da medida, ficava proibida a venda de bebida alcoólica e a instalação de vendedores ambulantes. As mulheres podiam entrar e sair das casas, os homens não.

A ordem, justificava-se, visava garantir a integridade moral das famílias que circulavam na área, em carros ou caminhando, e eram alcançadas por gestos obscenos. Diz-se que o verdadeiro motivo da ordem, porém, deveu-se à contumácia desses atos (cotocos e mãos na xoxota), praticados por prostitutas exatamente quando passava pela rua o Ford Landau oficial conduzindo o Sr. Governador.

A suspensão do exercício profissional das meretrizes, também se alegava, permitiria a recuperação de uma área degradada, reintegrando-a ao convívio urbano.

O padre Antônio Cuoco, da igreja do Rosário da Campina, não quis esperar para ver. No dia seguinte ao fechamento da zona, fez, na área sob vigilância, um comício, cercado de prostitutas, incitando-as a não abandonarem suas casas, fechadas pela polícia.

Naqueles idos de 1970 vivia-se o período mais repressivo da ditadura militar. Padre Cuoco foi imediatamente preso, acusado de subversão, ficando incomunicável.

A zona gramou um período de perseguições, com as prostitutas constantemente detidas pelos patrulhões, acusadas de praticar o trottoir ilegal. Mas o baixo meretrício, condenado à morte por decreto, ressuscitou. E hoje permanece como que mantido sob isolamento, separado da cidade por um biombo moralista.