De quando Caetano Veloso foi barrado na Tonga

 

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Ilustração: Branco Medeiros. Texto: Elias Ribeiro Pinto

Na crônica passada falei do Biriba, lendário bar aqui da Campina. Agora vou falar de um outro bar que ficava do lado oposto ao Biriba, do lado de lá da rua, na Carlos Gomes. Os dois bares têm mesa cativa no livro a ser escrito sobre a nossa boemia. Aliás, não era incomum sair do Biriba, atravessar a rua e esticar na Tonga, a casa que ficava do lado de lá e podia varar a madrugada, conforme a frequência, assumindo uns ares de boate.

Criada em 1972 (em plenas trevas ditatoriais do governo Médici, eclosão da Guerrilha do Araguaia, com a imprensa sob censura), a Tonga antecipou uma tendência que se firmaria naquela década: a do jornalista que deixa (mas nem sempre) a Redação e a banda de cá do balcão, o de quem bebe, transferindo-se para o outro lado, o do quem passa o pano e o cliente a limpo.

Acompanhado da então mulher, Lulucha, o jornalista Avelino do Vale engendrou, na sua Tonga, um ambiente intimista, acolhedor, abrigo da boa música e de comidinhas reconfortadoras, descoladas, como o sanduíche de legumes e as pizzas (então uma novidade em bares) acalentadoras, criação da sogra, Dionée Martins.

Se estivessem de passagem pela cidade (até parece que viviam por aqui), Caetano Veloso e Gilberto Gil costumavam esticar na Tonga, sem aviso prévio. Pois acredite se quiser. Uma vez, o China, um dos garçons da casa (fazia par com o Valdomiro), bateu, com toda educação, claro, a porta na cara de um tardo freguês, de sotaque baiano.
Era o próprio Caetano, que, depois de fazer um show na cidade, resolveu estender a madrugada no bar do Avelino. Como estava na hora de fechar, China disse para o canoro madrugador voltar no outro dia – que fosse fazer samba e amor até mais tarde noutro canto.

E se você esteve, perdido na noite daquela década, numa outra madrugada na Tonga, quem sabe não topou, sem perceber, com um topetudo político de Juiz de Fora. Ele mesmo, era o Itamar Franco que, de veneta por Belém, acompanhado de um amigo, numa daquelas noites derrubou uma garrafa de uísque, jura o Avelino.

E por falar em boemia nessa parte aqui da Campina, claro que vocês lembram (os de mais de 50) do Porão (na galeria da Assembleia Paraense) e do Papa Jimi (na Presidente Vargas). E do bar Primavera (também na Carlos Gomes, no mesmo quarteirão do Biriba e da Tonga), famoso pela batida de frutas e pela Antarctica casco escuro, estupidamente gelada, acompanhada de tira-gosto de leitão. Quem lembra? E onde ficava o Trogloditas, primeiro ponto a vender hambúrguer em Belém? Outro dia, em outra crônica, falarei desses bares.

Como a noite é uma criança insone, que venham outros botecos, outros Tongas & Milongas & Biribas & Primaveras, e que a noite dos tempos lhes seja leve. Garçom, ainda não acabei. Traz a primeira das saideiras.