Eia! Sus! Avante, Campina!

Elias Ribeiro Pinto

Numa coluna de alguns anos atrás, o Zuenir Ventura comentou a respeito de uma balada festa comemorada no “Estela da Lapa”, conhecida casa noturna situada no hoje renascido bairro boêmio carioca.

 

Na saída da festa, “um encontro ecumênico, com tendências políticas opostas se fazendo representar”, o hoje imortal Zuenir teve uma “agradável surpresa”. Às duas da madrugada, encontrou as ruas e calçadas da Lapa tomadas pela multidão.

 

“Desde que eu estivera ali havia alguns meses”, registra o autor de A Cidade Partida, “o antigo reduto da boemia carioca não só melhorara como aumentara o seu agito. Pelo jeito, a Lapa não estava voltando a ser a Lapa, já tinha voltado há muito tempo. Belo exemplo de revitalização espontânea, sem precisar de plano ou projeto do poder público.”

 

Na ocasião, um frequentador habitual informou ao jornalista que ali o movimento noturno era constante, “principalmente às sextas-feiras”, acrescentando que vem gente de toda parte. “Jovens, coroas, patricinhas, uma mistura só. Há bares e boates para samba, chorinho, forró e até música eletrônica.” O que mais intrigava o colunista carioca era a paz em meio ao burburinho. “Nada de arrastão, zero de conflito.” Nem parecia que estava na “capital da violência”.

 

Zuenir escreveu essa coluna em 2007. Acho que constatei o renascimento da Lapa até muito antes de Zuenir. Se não me falha a falha memória, experimentei esse mesmo deslumbramento que acometeu o cronista de O Globo durante período que passei no Rio por ocasião de mais uma Bienal do Livro, em 2003.

 

Naquelas duas semanas em que carioquei para cima e para baixo, hospedei-me num lugar de que conhecia a fama mas não de realmente sentar praça, de passar temporada: exatamente a Lapa. Confesso que segui meio temeroso ao encontro dessa Lapa, não tanto pela fama da malandragem, da navalha, dos rufiões de camisa aberta, dos sapatos de bico fino, dos cabarés e do pecado.

 

 

Muito pelo contrário. Aquela Lapa, espécie de filial do Pigalle encravada na Guanabara, com seu dédalo de ruelas tortas recendendo a xixi e a perfume forte das polacas, sabia, já não existia mais. O que eu temia era a Lapa atual, decadente, sombria, soturna e ameaçadora. Fossilizada. Pegando a rebarba da pivetada da Cinelândia, do Centro.

 

 

Quando voltava da Bienal, lá do Riocentro, do outro lado do mundo (carioca), tentava não chegar muito tarde. Vindo de ônibus especial, descia na Zona Sul e de lá pegava outro ônibus, comum, que me deixava quase na porta do meu edifício, um pouco além dos famosos Arcos da Lapa, na Mem de Sá. Naquelas primeiras noites, o bairro, que eu ainda tateava, palmilhava, parecia realmente meio soturno, um cadáver ainda não sepultado de todo.

 

 

Mas na minha primeira sexta-feira, voltei tarde da noite da Bienal. Vim varando a Zona Sul, imersa no agito da sexta à noite. Ou nem tanto assim, talvez pelo temor da violência recorrente (que naquele 2003 andava nas bocas, como quase sempre, aliás).

 

 

Companheiros e companheiras, quando me aproximei da Lapa, confesso, duvidei. Era o ponto mais disputado por carros e pessoas naquela noite.

 

 

Das janelas dos casarões acesos varava música ao vivo, samba, choro, jazz, forró, funk, rock. Em torno dos Arcos, um formigueiro. Gente jovem de todas as classes se misturava. A decrepitude ainda estava presente aqui e ali, mas nada que lembrasse a morrinha, a carranca de um passado humilhado, mortiço. A Lapa voltara a fazer parte da cidade.

 

 

Foi então que me bateu a comparação entre a Lapa e a Campina belenense, a nossa Campina, a Campina dos bordéis, das espeluncas, da zona, a nossa zona – quer dizer, se você não quer, tudo bem, fico com ela.

 

 

A Campina – à semelhança de uma Lapa, ou parte desta, ainda assombrada por seu passado ruinoso – também é habitada por uma morrinha vespertina, que quando cai a noite dá lugar ao soturno, ao ameaçador, ao assombradiço, às ruínas. É a Lapa que nos cabe, que engolfa a General Gurjão, a Riachuelo e vareja em direção à Gaspar Viana. Como a Lapa carioca, a nossa é parte do centro e recheada de um casario em franca decomposição – ou como era a Lapa da nata da malandragem, hoje de volta à vida, com uma outra fauna.

 

 

Assim como a Lapa do Rio, que abrigava porristas, prostitutas, intelectuais, jornalistas e gente assaz ligeira, a nossa zona do meretrício, ou baixo meretrício, também borbulhava, e tal qual a mais famosa, a nossa também foi vítima do autoritarismo moralizador, boçal, governante, que enxotou, ou tentou enxotar as prostitutas e exilou as “madames”, trocando-as pelas tabuletas anunciadoras de “famílias” – e eu completaria: aqui jaz.

 

 

Não trombeteio o retorno àqueles tempos, que também traziam no sangue a contaminação que, vá lá, corrompe. Não idealizo essa prostituição que se vê por aqui, amesquinhada, avulsa, que envenena um bairro alquebrado, triste, de ânimo demissionário, emoldurado por casarões ruinosos, vencidos.

 

 

Aliás, essa misantropia urbana também vale para a Presidente Vargas, para a Praça da República. De dia, o caos. De noite, entre espasmos, o eclipse da convivência. Nem mais bares, nem mais o Cine Palácio (só o exorcismo no atacado, evangelho pecuniário): falência da civilização no coração da cidade.

 

 

Mas por que abdicar de um espaço como o da Campina, por que não reincorporá-lo à cidade? Muito já foi perdido, casas lindas, singelas, escombros, mas ainda é possível rejuvenescer. Só não temos é muito tempo antes que o rigor da morte se instale de vez.

 

 

Mais recentemente, o miolo do bairro, o baixo Campina, o baixo meretrício, vem sendo cortejado pela cena teatral, desde a primeira exibição no Espaço Cuíra, a peça Laquê. Acho que o porão Puta Merda, que fica, ou ficava, comme il faut, no porão da casa da Wlad Lima, já não existe mais.

 

 

Faltam-nos mais bares descolados, livrarias, a música – até universidade já tem, ou ameaça renascer, a Universidade de Samba Boêmios da Campina. Afinal, a Campina é um bairro dotado de uma infraestrutura como poucos bairros da cidade dispõem.

 

 

O melhor, como lembrou o Zuenir, tal como na Lapa carioca, a Campina pode vir a ser “um belo exemplo de revitalização espontânea, sem precisar de plano ou projeto do poder público”. É o que nos tem mostrado o projeto Circular, que, tendo por embrião a Campina, já abrange o bairro irmão da Cidade Velha e agora o Reduto. Convidados a circular pelos bairros, a caminhar por suas ruas, vamos descobrindo os espaços culturais, os prédios históricos, as construções que lhe povoam o cotidiano, os barzinhos, as comidinhas para um degustar mais sossegado, domingueiro. Que isto seja só o começo, mas já estamos com meio caminho andado. Há muito mais a percorrer, tanto em suas ruas quanto no compartilhamento dessa iniciativa com quem queira fazer uma Belém melhor, de empresas particulares às instituições de governo, caminhando e (se possível) cantando no rumo dos 400 anos, que estão à porta. Então vamos abrir as portas. Vamos circular, moçada. E que Belém venha junto.