Quem aí frequentou o Biriba?

ilustracao_PEmanuelPor Elias Ribeiro Pinto (Ilustração: Paulo Emmanuel)

A nossa Campina sempre foi um bairro boêmio, não tivesse em seu coração republicano (na Praça da República, claro) o mais celebrado dos botecos da cidade, o Bar do Parque, um sobrevivente de sua espécie.

É, sobrevivente, que muitos ficaram pelo caminho aqui na Campina, um dia amanheceram com suas portas definitivamente baixadas. Como o Tonga, o Primavera, o Porão, o Papa Jimi, a Maloca, o Acapulco, o Barbinha. Só para citar os mais famosos.

A Carlos Gomes, por exemplo, em épocas mais movimentadas, chegou a abrigar em torno de cinco ou seis botecos convivendo na mesma noite. Entre esses já extintos, pelo menos um deles merece figurar na história da boemia belenense.

Refiro-me ao Biriba, que foi meu vizinho de atravessar a rua para pedir emprestado uma xícara de açúcar – quer dizer, um copo de conhaque. Ofereço aqui uma amostra de sua história.

Depois de ter trabalhado no Grande Hotel e no Central Hotel, Raimundo Martins de Souza, dublê de carnavalesco (foi o criador das batalhas de confete na Carlos Gomes) e bicheiro, reuniu as economias e assumiu, em dezembro de 1948, um ponto na Carlos Gomes esquina com a Bailique – atual Ferreira Cantão, a rua em que moro e batuco, ou melhor, digito estas mal aprumadas linhas.

Fanático pelo Paissandu, pessedista (e antes dizer, baratista) convicto, Raimundo arrebanhou sua clientela entre desportistas, jornalistas (com os quais apreciava beber, dividir a mesa), políticos, carnavalescos e bebuns em geral.

Cravou em seu bar o grandiloquente e astronômico nome Universal, mas poucos saberiam explicar, à vera, a origem do popular Biriba, o apelido que pegou e com o qual o bar eternizou-se na amnésica memória de seus frequentadores.

É o seguinte: em 1948, um vira-lata, que atendia pelo nome de Biriba, foi adotado como mascote-amuleto do Botafogo, clube carioca de coração do nosso Raimundo. E o time da estrela solitária tornou-se campeão naquele ano. Um amigo sugeriu o nome para o bar. Raimundo agradeceu mas recusou a indicação.

Dia vai, dia vem, quando a tarde, por aquela época, ainda definhava e o sol desmaiava, seu Raimundo mandou o empregado acionar o motor de luz, necessário para iluminar o bar. De brincadeira, o dono gritava para o responsável pela operação: “Vira a usina, Biriba”. De tanto entoar o bordão, o apelido acabou trasladando do empregado para o patrão. Do patrão para o bar. E pegou.

Por um bom tempo, o Biriba foi o maior vendedor de batidas da cidade. Aos seus almoços compareciam, entre tantos outros contumazes, Grimoaldo Soares, Emanoel Ó de Almeida, Jocelyn Brasil, o baratista Armando Corrêa (personagem odiado pelo pessoal das “Folhas”, à frente “A Folha do Norte”) e o antológico Porfírio da Rocha, fotógrafo de “A Província do Pará”, que ia ao Biriba de manhã, de tarde e à noite, dia sim e o outro também.

Certa ocasião, Porfírio recebeu uma bolada extra e mandou guardar o dinheiro no cofre do Biriba, mas, antes, sem prévio acerto de contas, arrematou toda uma prateleira de bebidas do bar

Na hora do almoço (ou da janta), mandava arriar as bebidas e, à medida que as garrafas iam baixando, ia se abatendo a conta do dinheiro de Porfírio guardado no cofre.

A qualquer hora do dia, amigos (ou nem tão amigos assim) chegavam e diziam, íntimos: “Me dá uma da prateleira do Porfírio”. Como já estava tudo pago, serviam.

Isso tudo acabou no início dos anos 1990, quando o Biriba, o bar, baixou definitiva e melancolicamente as portas. Raimundo Martins de Souza, o fundador, foi poupado desse fim. Fechou-se antes.

Que aqui fique esse registro, acordando-nos para a lembrança do Biriba, que memória de boêmio, sabemos, dura tanto quanto espuma de chope.