Saudosa Campina de Outrora

Uma crônica da Campina, por Elias Ribeiro Pinto

de Beauvoir Cafe de Flore

Jean-Paul Sartre, Simone du Beauvoir e amigos… A foto foi tirada no Café de Flore, na França, mas podia ter sido na Maloca, em plena Campina, Belém do Pará…

 

O centro histórico de Belém – do qual a nossa Campina é batuta – há muito perdeu, digamos, a sua dignidade central, que lhe dava a primazia de irrigar não só a vida diária da cidade, com seu agitado movimento comercial, mas também a vida noturna, que gravitava em torno de seus não menos movimentados bares e boates.

Quem passa, por exemplo, pela Praça da República, no lado que dá para a subida da Oswaldo Cruz, jamais imaginará (as gerações mais recentes, pelo menos) que aquela inusitada constelação de troncos, disposta em círculo, abrigou um dos points mais turbinados (ai, desculpem, não resisti a turbinar este texto) da cidade, a Maloca.

Em outubro de 1960, o casal existencialista Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir demorou-se na Maloca bebendo lentos goles de cerveja – e espero que as gerações mais jovens saibam a que casal estamos nos referindo.

Depois de percorrer o Brasil, o famoso autor de “A Náusea” desembarcava em Belém disposto a desvendar a “realidade amazônica”. Mas a Amazônia que efetivamente conheceu não chegou a ultrapassar o horizonte etílico que seus olhos míopes alcançavam, instalado no pátio do Central Hotel, na Presidente Vargas, ou na Maloca, na Praça da República, seu posto avançado de observação, enquanto se encharcava de cerveja para abrandar o calor, bebericando ao lado de La Beauvoir.

O jornalista Haroldo Maranhão foi ao encontro, na Maloca, do “famoso homem de letras”, para tentar convencê-lo a aceitar um convite. Voraz consumidor de livros, o futuro autor de “Rio de Raivas” resolvera, por aquela época, passar para o outro lado do balcão, decidido a colocar em prática a quixotesca ideia de abrir uma livraria, que receberia o nome, é claro, de “Dom Quixote”, aberta na galeria do Cine Palácio (gentes e imóveis desta crônica estão hoje quase todos extintos). O convite era para que Sartre autografasse na livraria, mas isso já é outra história.

garn hotel

Bar na calçada do Grande Hotel

À Maloca iam os figurões da época, que alternavam a farra republicana (na Praça da República, não esqueçam) com o Amazon Room do Grande Hotel, que bateu as botas primeiro. Curiosidade: que uísque se bebia então nessas concorridas mesas? Logan, Dimple, Cavalo Branco, Chivas, Royal Salute, o Paraguaio…

O prato chique de então, que só os mais endinheirados pediam, era o estrogonofe, que hoje praticamente não consta do cardápio dos bons restaurantes da cidade. A não ser em versões heterodoxas. A Maloca chegou a ganhar uma sobrevida, ao mudar-se para a Praça Kennedy, atual Waldemar Henrique.

Saindo da antiga Maloca, seguindo em frente, logo na entrada da descida da Riachuelo, tivemos o simpático bar Acapulco. Conheço porque o papai ficava por lá, e lá eu ia encontrá-lo para a atualização da contabilidade doméstica. Meus pais separados, eu, rapazinho, servia como uma espécie de pombo-correio do dever-haver.

Tocando pela Riachuelo, zona adentro, havia as grandes pensões, Anita, Corredor Polonês, Long Beach. Era o tempo em que as pensões da zona eram comandadas por madames, como Madame Fernanda (que funcionava no casarão situado na esquina da Ferreira Cantão com General Gurjão, hoje ainda de pé, mas bastante deteriorado) e Madame Zezé. Seus salões recendiam a laquê e serviam uísque Cavalo Branco.

Mas se o notívago dos anos de 1960, 1970, em vez de cambar para a zona prosseguisse pela Presidente Vargas, no rumo da Carlos Gomes, toparia, entre as boates da Tuna Luso Comercial e da Assembleia Paraense, com a revolucionária e épica boate Papa Jimi, nome dado em homenagem àquele que é considerado o maior guitarrista de todos os tempos.

Era sofisticadamente revolucionária, pois dispunha de ar-condicionado (um diferencial para a época), discoteca variada e atualizada e iluminação especialmente concebida para o ambiente. Logo na entrada sobressaía um imponente desenho do guitarrista, imagem que se reproduzia na toalha das mesas.

E ainda nem chegamos à Carlos Gomes. A descida dessa rua já nos saudava com dois dos bares mais conhecidos da cidade, o Primavera, na esquina da Primeiro de Março, nos fundos do ex-Grande Hotel, ex-Hilton (atual Princesa Louçã), e, na esquina seguinte, na Bailique dos porradeiros, o Universal, o popular Biriba, ambos famosos por suas batidas. Entre um bar e outro, a Tonga, do Avelino e da Lulucha. Mas sobre esses bares já falei ao longo desse roteiro boêmio que venho traçando na Saudosa Campina de outrora, como diria um De Campos Ribeiro campineiro.

Ah, e nem deu tempo de passar pelo antológico Porão, na galeria da Assembleia Paraense.
E hoje? Depois que até o Garrafão avinagrou-se e baixou as portas, restou o vampiresco Bactéria’s Bar, o morto-vivo. E de centro viramos periferia, pelo menos quando saímos à procura de noites perdidas no tempo.